Com alguns dias de atraso, mas a culpa é do Ministério da Educação.
José Saramago morreu no passado dia 18 de Julho.
Eu, na qualidade de fraco leitor (que reconheço já que é um hábito que deveria mudar urgentemente, o da não leitura) ainda só li duas obras de Saramago, Ensaio sobre a Cegueira e Caim. Desde cedo que fiquei espantado com o estilo de escrita que não estava nada habituado, onde é relativamente fácil que uma distracção momentânea nos faça reler uma frase do início, devido à pontuação (ou falta dela) característica e o predomínio de vírgulas. O problema reside precisamente no tamanho das frases, pelo que uma dada distracção momentânea pode acabar por nos remeter ao topo da página.
O estilo de escrita de Saramago fez-me pensar imediatamente que ele era de facto um génio. Porque realmente fazer frases tão grandes por intermédios de vírgulas que separam apartes e comentários que nunca mais acabam (mas tudo feito de uma forma requintada, não fosse ele Nobel da literatura!) é trabalho para quem tem uma capacidade de organização mental e memória fora de série. Mas depois penso nos meus hábitos maus relativamente à leitura e concluo que posso estar a atribuir o estatuto da genialidade demasiado rápido, uma vez que ainda não contactei com outros prováveis génios literários. É caso para dizer que a ignorância faz a genialidade.
Bem, posto isto houve algumas atitudes relativamente à morte de Saramago que foram bastante discutidas, nomeadamente a ausência do Presidente da República no funeral. Na verdade não achei tão escandaloso como se fez parecer, uma vez que eles não eram propriamente os melhores amigos. Aliás, muito pelo contrário.
Mas quando o Presidente foi prestar declarações à imprensa sobre a sua ausência no funeral, declarou que tinha agido como compete a um Presidente da República. Cavaco Silva é um senhor dotado de uma capacidade extremamente interessante e por vezes extremamente inútil: cumpre as regras todas à risca, é que nunca falha mesmo.
Tive a oportunidade de ver uma entrevista conduzida pela Judite de Sousa ao Presidente e realmente é preciso ter uma paciência sobrenatural para aturar tantas respostas do género: “Não me compete fazer essa análise/ter essa opinião/comentar esse aspecto”. Cavaco Silva pode ser um bom Presidente em muitos aspectos, mas na qualidade de irritante é verdadeiramente sublime. E verdade seja dita, ele lá queria interromper as férias nos Açores para cá vir ao continente assistir ao funeral de Saramago.
Outra situação que achei um bocado degradante foi a publicação feita lá naquele jornal do Vaticano. Eles lá dizem que Saramago desrespeitava o que era sagrado, e ainda dizem outras coisas que são consideradas injuriosas (numa perspectiva muito específica da Igreja, não duvido que se Saramago cá estivesse para ler o que foi publicado elogiaria serenamente a capacidade de observação dos membros do clero para determinarem que ele é comunista, sem que isso o ofendesse de todo).
O que é facto é que a publicação parecia ter um certo propósito ofensivo, e aí há uma falta de respeito notória, especialmente com a família do falecido. Mas pronto, Deus é perfeito, não quer dizer que quem o siga ao mais alto nível seja particularmente dotado de uma capacidade moral a um nível tão alto quanto o que representa (pois, é contraditório, acontece…).
Claro que José Saramago não era propriamente uma paz de alma que não quisesse de modo algum provocar alguns momentos de maior tensão entre crentes e não crentes, mas enfim, continuo a achar inapropriado.
Enfim, que José Saramago descanse em paz e que se algum dia encontrar Deus a passar na rua de onde quer que ele esteja, vá ter com ele e o cumprimente como prova de boa fé. Só para acalmar as polémicas.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
Há gente que devia ir mais vezes ao oftalmologista
Um homem matou a mulher porque a confundiu com uma onça. É de loucos, mas é verdade.
Segundo a notícia em que esta história vinha retratada, o casal andava a pescar numa zona de mata fechada. Aqui neste ponto da história não sei bem o que se passa…Talvez o casal não soubesse que a pesca é usualmente praticada numa zona onde há água, água essa que serve de habitat para os peixes que eventualmente se irão pescar. Ah, e os peixes são capturados com umas canas, que sugestivamente são chamadas “canas de pesca”.
Mas vamos dar o benefício da dúvida ao nosso inexperiente casal e pensar que a zona de mata fechada onde eles levavam a cabo as suas actividades piscatórias dispunha realmente de um curso de água. O problema desta explicação é o seguinte: não cobre o facto de se levar uma arma de fogo quando se quer pescar.
Talvez seja uma nova técnica, enfim, já que a pesca não é a actividade mais fascinante do mundo em termos de acção, alvejar os peixes enquanto eles saltam da água talvez faça com que os mais pequenos estejam dispostos a acompanhar os pais quando forem pescar. Neste caso é melhor não, não fosse o pai confundir o filho com um leopardo.
Seja como for, a explicação que se apresenta mais simples para justificar este cenário de pesca praticada em mata fechada e com armas de fogo é realmente um lapso do autor da notícia, que provavelmente estaria a pensar se tinha mudado a água do aquário dos seus peixes quando queria escrever “caça”. Ainda assim é uma questão misteriosa.
Passando à frente, é realmente grave confundir a esposa com um animal selvagem. O homem alvejou-a duas vezes, e só se apercebeu que era ela quando já estava ferida.
Gostava ainda assim de saber como a mulher reagiria à explicação do homem: “Oh Maria, desculpa lá, confundi-te com uma onça!” – acho que a mulher é que o matava a seguir. E para quebrar o gelo, numa situação de tanta tensão, o homem ainda poderia acrescentar: “Se te confundisse com um elefante era pior! Não te zangues comigo!”. Realmente poderia ser pior.
O mais interessante é que o homem foi libertado após a detenção. Afinal de contas dizer que se confundiu a vítima de homicídio com um animal serve como desculpa. Para mim, só seria aceitável se fossem feitas análises ao homem e desse positivo para LSD.
Não estou a insinuar que de facto haja alguma premeditação por parte deste senhor no que fez, apenas receio que isto pegue moda e agora sirva de desculpa para outros cenários.
“Oh senhor agente, não foi por mal, pensei que ele era um cão raivoso aqui no meio da rua, e por mero acaso tinha aqui a minha arma, porque afinal de contas, homem prevenido vale por dois!”
Link:
http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=A9E1732F-93A3-4A63-9C41-535A4E44BF65&channelID=00000021-0000-0000-0000-000000000021
Segundo a notícia em que esta história vinha retratada, o casal andava a pescar numa zona de mata fechada. Aqui neste ponto da história não sei bem o que se passa…Talvez o casal não soubesse que a pesca é usualmente praticada numa zona onde há água, água essa que serve de habitat para os peixes que eventualmente se irão pescar. Ah, e os peixes são capturados com umas canas, que sugestivamente são chamadas “canas de pesca”.
Mas vamos dar o benefício da dúvida ao nosso inexperiente casal e pensar que a zona de mata fechada onde eles levavam a cabo as suas actividades piscatórias dispunha realmente de um curso de água. O problema desta explicação é o seguinte: não cobre o facto de se levar uma arma de fogo quando se quer pescar.
Talvez seja uma nova técnica, enfim, já que a pesca não é a actividade mais fascinante do mundo em termos de acção, alvejar os peixes enquanto eles saltam da água talvez faça com que os mais pequenos estejam dispostos a acompanhar os pais quando forem pescar. Neste caso é melhor não, não fosse o pai confundir o filho com um leopardo.
Seja como for, a explicação que se apresenta mais simples para justificar este cenário de pesca praticada em mata fechada e com armas de fogo é realmente um lapso do autor da notícia, que provavelmente estaria a pensar se tinha mudado a água do aquário dos seus peixes quando queria escrever “caça”. Ainda assim é uma questão misteriosa.
Passando à frente, é realmente grave confundir a esposa com um animal selvagem. O homem alvejou-a duas vezes, e só se apercebeu que era ela quando já estava ferida.
Gostava ainda assim de saber como a mulher reagiria à explicação do homem: “Oh Maria, desculpa lá, confundi-te com uma onça!” – acho que a mulher é que o matava a seguir. E para quebrar o gelo, numa situação de tanta tensão, o homem ainda poderia acrescentar: “Se te confundisse com um elefante era pior! Não te zangues comigo!”. Realmente poderia ser pior.
O mais interessante é que o homem foi libertado após a detenção. Afinal de contas dizer que se confundiu a vítima de homicídio com um animal serve como desculpa. Para mim, só seria aceitável se fossem feitas análises ao homem e desse positivo para LSD.
Não estou a insinuar que de facto haja alguma premeditação por parte deste senhor no que fez, apenas receio que isto pegue moda e agora sirva de desculpa para outros cenários.
“Oh senhor agente, não foi por mal, pensei que ele era um cão raivoso aqui no meio da rua, e por mero acaso tinha aqui a minha arma, porque afinal de contas, homem prevenido vale por dois!”
Link:
http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=A9E1732F-93A3-4A63-9C41-535A4E44BF65&channelID=00000021-0000-0000-0000-000000000021
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